Linha quebrada

Dois recentes jogos pelo mundial de clubes, Osasco contra Eczacibasi e Rio de Janeiro contra Vakifbank, servem para desbaratar um problema sintomático dos clubes brasileiros: um passe completamente despedaço. Isso fica bem claro nos times menores, ao se assistir qualquer partida da Superliga, mas agora aparece nos “grandes”. As duas situações foram bem diferentes, apesar de envolverem o mesmo fundamento.

Da parte do Osasco, nem foi necessário tanto esforço do Eczacibasi para ter seu passe completamente desestabilizado, a equipe paulista fez isso por si só. Tássia entrou no lugar da Brait com uma atuação bizonha. Ela mostrou a importância de uma boa líbero pro funcionamento de um time, sendo exatamente o contrário. Para piorar, não bastasse o passe desossado, o time não sabe lidar com esse tipo de situação (como um Vakif sabe, por exemplo), em parte por culpa da veterana, mas instável e pouco inventiva nos levantamentos, Dani Lins, apesar de em algumas poucas jogadas fazer valer sua experiência. A lentidão técnica, para tentar melhorar a linha de passe, ajudou a afundar a equipe.

Já do lado do Rio, o potente saque da seleção mundial que é o Vakif (seu time base conta com uma representante de cada um dos semifinalistas das olímpiadas do Rio) desestabilizou completamente a equipe, especialmente no segundo set em uma sequência de saques da Zhu. E, assim como o Osasco, o time não soube se recuperar de um passe quebrado. Além disso, a equipe carioca se viu diante de uma muralha que parecia pronta para acabar com qualquer tentativa de ataque – foram 19 pontos de bloqueio do Vakif. Em todos os fundamentos a equipe turca deu aula.

A questão que fica, para quem acompanha as equipes brasileiras, é exatamente sobre o que ainda resta de nosso voleibol, sendo que os dois finalistas da nossa principal competição nacional, deram exemplos da nossa dificuldade atual com estrturações de linhas de passe consistentes e levantamentos variados, inventivos e estáveis. Como se desenvolverá uma seleção nesse novo ciclo olímpico com o que temos a disposição? E ainda mais sabendo que a nossa comissão técnica é pra lá de paneleira e conservadora, insiste em erros e arrisca pouco.

10/05/2017

A honra é do freguês

O Praia mais uma vez honrou sua camisa e entregou mais um título ao Rio. A freguesia se confirma de tal forma, que a aparência do jogo foi de um time arquitetando sua derrota. Salvo o horrendo primeiro set, digno de um campeonato interclasse de colégio católico, foi o Praia quem ditou o ritmo da partida. Estranho afirmar isso, posso até ser acusado de diminuir os méritos da equipe carioca, como se eu fosse capaz ou digno de desvalorizar as maiores campeãs de nosso voleibol feminino, falo do que se passou em quadra.

A primeira parcial foi definida na base do que errou menos, e, nisso, o Rio se saiu menos pior, terrível encontrar uma situação dessas numa partida que, supostamente, deveria apresentar o melhor do voleibol sulamericano, a melhor ilustração foram dois erros grotescos da Carol. Na segunda, o Praia mostrou o que sabe fazer de melhor: apresentar todo seu potencial desperdiçado. Com uma Fabi eficiente, uma Alix atacando com toda potência de seus braços longos, um passe funcional e um bloqueio imponente, o time abriu larga vantagem, que foi reequilibrada depois de uma inversão 5×1 por parte do Rio, levando Camila Adão e Helô pra quadra, mas já era tarde e a equipe mineira empatou o jogo. Fica um gosto agridoce desse set, ver que um time que pode apresentar um bom jogo, repleto de jogadoras talentosas, sempre amarela na frente de suas principais rivais nacionais.

No terceiro set isso foi confirmado, com um Rio mais funcional o Praia se desequilibrou, não conseguiu abrir vantagem e, diante disso, entregou a vantagem às adversárias com um belíssimo chute na rede. Numa partida de vôlei, um chute marcante: ali o jogo foi entregue, junto com o ponto resultante do cartão vermelho. Isso levou a um quarto e último set estranhíssimo, o Praia abriu caminho para o Rio passear, uma parcial de 25 a 10, como se as jogadoras da equipe mineira tivessem desistido de sequer tentar, a repetição do mesmo erro de levantamento ilustram isso. As constantes vitórias das adversárias começam, na verdade já começaram há tempos, a pesar como uma maldição para o Praia.

Da parte do Rio, veio um show da Monique, uma Gabi um pouco apagada, mas eficiente quando acionada (acho uma jogadora um pouco injustiçada por alguns lados, mas é texto pra outra hora), e uma considerável melhora da Buijs nas recepções, acho que estão treinando tanto ela que até arrisca uns golpes de libero, o Brasil aqui faz um grande favor à Holanda.

E da mesma forma que o Praia ditou o ritmo da partida, e seu resultado, foi sua posição a grande afetada com o resultado. Já não parece possível para a equipe continuar no posto de principal rival do Rio. Diante de mais uma derrota do Osasco para o Minas, na sexta-feita, essa posição fica ainda mais indefinida.

18/02/2017

o principal componente da máquina de ataque

Os passos meio desajeitados para trás levam-na para fora de quadra. O dobrar do corpo todo, de quase dois metros, para preparar o salto, a arma mortal. Mais de três metros de alcance. O pousar das pernas longas, um pouco magras, embora de músculos definidos, evidenciados pela tensão do dobrar dos joelhos quando os pés tocam o chão da quadra. Ou no comportamento do outro compenente de funcionamento: o preciso levantamento de Ognjenovic, que lança a bola de costas, sem olhar, com a segurança de que sua companheira alcançará e fará valer a jogada. A bola cai no fundo do campo adversário, o Pomi Casalmaggiore, sem que qualquer uma daquelas jogadoras de camisa rosa tivesse o tempo necessário para reagir. E, então, um sorriso de aparelhos. Um ataque que se faz com todas as forças do corpo – o distanciamento, o salto, o esticar do braço e o golpe final.

Não há dúvidas de que Tijana Bošković já é, aos 19 anos, uma das maiores forças do voleibol contemporâneo, tanto no milionário Eczacibasi VitrA, quanto pela ascendente e potente seleção sérvia. A jogadora que, mesmo em uma derrota, fez quase um set de pontos em uma final olímpica, honra e lembra-nos o funcionamento de uma oposta: o principal componente da máquina de ataque.

O posto de MVP no mundial de clubes, assim como sua atuação geral na competição, em especial nessa final contra o Casalmaggiore, só confirma o que se anuncia toda vez que Bošković entra em quadra: uma intensidade. Assistir a um de seus ataques, ou um de seus precisos saques no centro do time adversário, é lembrar que estamos diante de um esporte de envergadura, jogado com todas as potências do corpo, desde as bases dos pés vacilantes até as pontas dos dedos que se erguem a três metros do chão.

24/10/2016